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2024 — 2023

“Verde”

Como vai,
verde eucalipto?
Viva, e se cuide,
dá tempo.
Calma, que a gente
chegou.
Vem florescer,
ver de perto. É dezembro.

Verde,
o mais puro amanhã
é hoje, como é que tu vai?
Ontem tu
pousou
no meu peito
a saudade vai ficar
para trás.

Traz
a tua brisa
o calor, do pomar, do teu seio, esmeralda,
que a primavera se foi. Se foi. E se for
faz da dor,
possível for,
pequena por
doer mais nada.





“Casarão Branco”

Perto do meu barraco tinha um casarão branco,
com janelinhas combinando, varanda e segundo andar.

Os prodígios que lá brincavam, brincavam de viver meu sonho.
Pelas frestas do barraco, eu, menorzinho, ia espiar.

A minha rua era só terra, barro e pedra e pés castanhos.
Voltando eu via o portão branco, separando o casarão da vergonha de cá.

Já reduziram o antigo barraco à terra, barro e pedra há anos,
mas hoje eu passei pelo casarão branco, e espiei o meu sonho, que não saiu do lugar.





“Amor Composto”

Para o meu
botão de sol,
meu pé de céu,
meu fogo d’água.
Na terça eu soube que te amo, porém,
você já não estava.

Não estava
o passaredo,
bombom de olhar,
meu som de aurora,
e que é meu pó dos três desejos,
meu trevo de catar vitória.

Foi embora,
a maré cai.
Calado o amor não tem morada.
Na terça-feira eu te liguei,
na terça-feira eu te liguei,
na terça-feira eu te liguei.
Por favor,
retorne quarta.





“Parto”

Nascimento é um parto. Parte-se sem passagem de volta, sem ter como abdicar. Com dois pés esquerdos, parte-se sem seguir em frente, com o coração partido, parte-se.
Fugir é um risco vital da viagem, em parte, faz com que a gente se ache fora do lugar. E se o lugar não há, por que andar, correr correr, ficar-se à parte? Parte-se.
Parte-se, apesar. Reparte a vida, entre quem foi e quem fica, cria na morte outra partida daquilo que permanece em nós. Nasce-se, com pesar, por tentar fazer sua parte, que em um jardim de malmequer, bem-me-quer não vai ser parte, e parte-se, parte-se, parte-se, parte-se…





“Já já”

Busco ser mais que eterno: busco ser daqui a pouco.
Pouco agora que é palpável,
e daqui que logo mais te ouço.

Serei eu menos que efêmero: para que nunca me aguarde.
Nunca, que nunca é para sempre,
e para sempre é sempre tarde.

Já já virão as borboletas, que em sua formosura brevidade,
pousarão no presente pelo chiar de uma chaleira
e nos olharão feito o tempo: indiferente.

Já já, talvez, seja demais.
Já já é quase eternamente.





“Nada dela”

No papel bege da carta
Escrevi em tinta amarela
Mensagem em sete idiomas
Contando o que eu sinto pra ela
Em letra garrancho miúda
Sem vírgula ou ponto final
Enfiei a carta na garrafa de vidro
A garrafa de vidro no baú de metal

Zarparam: aviões, trens-bala, navios
E o baú de metal num barquinho de pesca
O barquinho sacudindo o mar
O mar sacudindo a terra
A terra com pena de mim
De mim resta apenas espera
Caça palavras, bolo, chá
Mas até hoje nada dela





“Aula de voo”

Eclodi eu
Um passarinho, inho
Debaixo de asa fiz meu cobertor
De cima do ninho
Fui eu caindo, indo
Nenhum pio amaciou a dor

Avoei eu
Da queda cantando, ando
Um pássaro mor crescido que sou
Com medo do sol, eu vou
Nas nuvens, com medo eu vou
Piando, piando
Eu vou
Eu vou
Eu vou





“Bem-te-viu”

Vi que pintaste os bem-te-vis
Teu canto é flor cor de laranja
Na varanda tu faz falta
Tu faz falta na varanda
Bem-te-vis que cá choviam
Tu não pintaste faz semanas
Da varanda foste a graça
Foste a graça da varanda





“Fatalidade”

Pedi para existir, embora fosse eu um criminoso por nascer, eu tive que pedir para existir, e agora não sei como viver.
Por que fiz isso, puxa vida, não sei, mas como fui tolo, um dia achei que eu soubesse. Tantas coisas que eu queria que eu não podia querer, tantos sonhos sonhei ainda que despertado estivesse. Em um planeta tão grande, olhei para um céu que é tão vasto, vi um universo maior e em meu coração sobra espaço. Eu no espaço não caibo.
Fui apenas uma piada, mas minhas mãos anotam no canto de um guardanapo uma história tardia, do meu corpo, minha pele, tudo se repete, o mundo ansiava pela minha partida.
Pedi para existir, embora eu um ninguém sem essa capacidade. Ó céus, por quê? Se amar é natural e o sofrimento inevitável, o viver é realmente uma fatalidade.





“Isto”

O que é isto, afinal? Isto de deixar o que é bom ir embora aos pouquinhos e aceitar que a ruindade vai chegar aos bocados, pois não há nada a fazer, não há nada a fazer. Isto de despertar atrasado, pegar ônibus lotado, isto no bom dia que não respondem, nos e-mails que não respondem, nas mensagens que leem com pressa, e de que é preciso ter pressa, porque o tempo é uma moeda que nenhum pobretão pode gastar. O que é isto de trabalhar, trabalhar, trabalhar para comer, e comer, comer, comer e continuar com fome, que fome é essa? O que é isto que dói, mas não se pode abrir mão, que tem que querer e lutar? O que é isto que cansa os pés, cansa as vistas, arranca os cabelos e ainda tem quem peça por mais? Isto que as crianças choram e gritam e riem e choram, e os adultos dizem que sabem e falam que conhecem e dizem que entendem e que, se pudessem, fariam o que for para ser criança outra vez. O que é isto parado em fila de banco, em fila de hospital? Isto que precisa estar medicado, que precisa estar embriagado, que todo cuidado é pouco, que todo abraço é pouco, que todo sentimento já sentido no mundo é muito pouco, isto que dá medo em quem não é louco e que somente os loucos dormem sem se preocupar. O que é isto? O que é isto, afinal? Se for o que penso, temo pela minha vida.





“A Doença de Ser”

A chuva sempre traz de volta
o sal do mar aos meus olhos.
Pedirei ao mar
que me leve
aonde eu veja o marejar desse paraíso
de corações que nunca falham.

Eu sou somente um homem fraco
que só agora aprende a viver.
Urge um pé-d’água que faça o céu se apaixonar
por um neguinho qualquer
igual eu.
Urge uma cura
para a incurável doença de ser.

Acabo de ver
a chuva que cai na Terra
transformando em lama a areia de minhas recordações.
O nunca é para sempre demais,
vem vindo minha primeira manhã
— a primeira manhã dessa vida renascida,
a morte vai me dar perdão.

Virão mais nuvens de solidão,
virão.
O céu trará de volta
um sol que se ponha em mim.





“Conhecedor de Todas as Coisas”

Fui e voltei até onde vento bamboleia
Surpresa nenhuma me parou
Sou conhecedor de todas as coisas

Bicho que soube de nascença
Viajo como quem floreia
Em canteiros, em cantadas, em cantigas
Sou fazendeiro de emoções
Jurei cavalheirismo a um ninho de margaridas

Fosse eu um simples manobrista de esperanças
Sob os cuidados das estrelas dançarinas
Eu ando, eu ando contra o vento
Eu vejo, eu vejo belezura na vida

Palavras me comerão vivo
Mas fosse o fim eu saberia

(À sabidão, meu arvoredo)

2022 — 2019

“A Falta”

Sinto falta da escada de pedra onde eu sentava e do chinelo ploc ploc lá da casa onde eu morava. Da varanda eu pendurado no subúrbio baixo d’água, dali de cima da prainha eu me afoguei e me afogava.

Eu vi trocarem os passarinhos por pés de jabuticaba e uma ausência da disgrama adoecendo quem me amava. Cá no fundo do quintal meu fantasma ainda faz morada, em frente ao mar chuá chuá eu fui criado pela falta.





“Por não chorar”

Por não chorar perdi muita coisa.

Nasci sem querer, mudo e miúdo,
Sem poder escolher meu rumo e nem a cor
Dos meus vestidos pretos.

Por não chorar perdi muita coisa.

Cresci encarando um muro cinza e alto,
Onde não batia sol, nem assoviava o vento,
Onde escrevi um nome
Caso um dia voltem a me chamar.

Por não chorar perdi muita coisa.

Vi a miséria ante os pais de família,
Vi a baía mais longínqua,
Vi a violência,
Vi a inocência ruída,
Vi todos irem embora
Sem que nada os fizesse acreditar em mim.

Sofrer como eu sofri, andei como eu: despercebido.
Por não chorar perdi muita coisa,
Mas tiveram meus olhos cumprido o seu papel.





“Cria e Criador”

Jaz aqui
Um poema.
Poema ao qual contei um segredo.
Poderia deixá-lo viver?
Poderia.
Mas o matei porque senti muito medo.

Estás aqui
Um poeta.
Poeta no qual vive certo receio:
Poderiam deixá-lo?
“Poderão.”
O poeta me disse, em segredo.





“O Córrego”

Cravado na carne vermelho córrego, suco melado e inacabável, ora quente, ora frio, obra autoral assinada e exposta no museu dos ordinários. Corre pelo abandono, na esquina dos ignorados, sobe a infelicidade sem fim, sem foz, desce, desce, desce a ladeira de pranto inexistente calado.

Transborda indesejável só, enche a lucidez no copo um espesso azar líquido e rega botão de ferro, ódio, fracasso enraizado à sede de ser, floresce entre vícios.

Nascente do esfomeado monstro, monstruosa seca, que dá de beber o córrego, que dá de comer a vida, que mata sede ou mata fome e sem remediar cicatriza.





“Prova”

Esvaziei meu corpo, tirei todo sangue de dentro, deixei-o oco para o meu pesar pesar menos.

Cavei no peito um buraco, para esconder a prova da minha dor, enterrando uma tonelada que o vazio me custou.

Papeio com a solidão e a ausência preenche até os fios de meus cabelos. Escorro-me por salvação, mas confesso que a leveza me traz mais peso.





“Passou batido”

Se fui feliz? Já não lembro,
Tal como esqueci o modo de sorrir.
Dou meia volta, tateando em rastros e acasos,
Rostos que não fiz questão de guardar — e perdi.

Do eco da memória restou só pingo de verdade,
O que me faz duvidar do oceano sentido.
Entalhado na carne, abrem-se livros que gargalham, mas
Se fui feliz? Deve ter passado batido.





“À deriva”

À deriva naquelas águas prometidas, percebi que navegar em meu barco pequeno e frágil eu não podia.
Tentei jogar meu fardo ao mar para manter a ilha à vista. Joguei roupas e sapatos, cartas, fotografias, cedi de mau grado minhas tábuas, mas meu sonhar? Não poderia.
Ao abrir mão daquela praia para boiar com as fantasias, deixei meu barco ser levado pelas promessas não cumpridas.






Dos sonhos mais belos,
Da mais pungente paixão,
Do sorriso mais largo
Ao coração mais dilacerado.

Das falhas grotescas,
Do aplauso estridente,
Da memória mais emocionante
Às palavras mais cruéis.

Das relações acolhedoras,
Da solidão que assola,
Do ser mais arrependido
Até o mais seguro de si…

Não importará coisa alguma.

O mundo destruirá tudo.
A vida sumirá com tudo.
Nada irá restar do que um dia existiu.





Se é pra dizer que sou feliz, terei que abandonar tudo em mim para seguir adiante e para trás ficarão, jogados num canto, o rosto triste, o coração quebrado, as pernas cansadas, a mente inquieta e os sonhos que jamais se realizarão.

Se é pra dizer que sou feliz, terei que aprender a como é que se diz felicidade e, de alguma maneira, achar num sorriso, em uma mesa de bar, entre conversas de amigos, um significado escondido, incompreendido, até então inexistente e impronunciável.

Se é pra dizer que sou feliz, terei que me perder a fundo na irrealidade até ser consumido pelas ilusões e viver desvairado, louco, ignorando as angústias, explorando as dúvidas, sentindo na pele o calor da procura de algo bom para recordar.

Se é pra dizer que sou feliz, terei que provar da droga do esquecimento para que, no instante em que o efeito estiver me obrigando a mentir, as palavras consigam escapar pelas minhas veias como se eu as tivesse gritado, arrancado, esperneado feito um desesperado, insolente e estúpido o suficiente para dizer absurdos.





“24”

Corro para não ver que a vida se distancia em cada passo, enquanto vou me perdendo nos diversos embaraços do caminho, até que eu possa voltar ao início e ficar incontáveis horas parado, questionando: por quanto tempo estou sozinho neste mundo esperando a vida me alcançar?





“Em Branco”

Preciso arrancar de mim estas ideias há muito defasadas, mesmo temendo os julgamentos do papel em branco contaminado pela minha insuficiência e má escolha no jogo perdido de palavras tão gastas, tão monótonas, que eu mesmo, se pudesse, amassaria, rasgaria, queimaria e jogaria as cinzas para o alto; mas não conseguiria suportar o peso de viver com mais uma frustração, eu preciso mostrar que não sou descartável como este papel.





“Atraso”

Leva tanto tempo esta sua demora
Não sei mais quanto irá durar
Vou viver o meu agora
Depois me dedico a te esperar

Tão longa esta eternidade
Seu esquecer me faz lembrar
Te peço único favor: venha logo que já é tarde
Cansado que estou deste aguardar

Esperança é, realmente, um sentimento traiçoeiro
Um tolo a planta em seu jardim
Pouco após, colhe os anseios

Seu atraso diz pra mim: “Quero ser só passageiro”
Tenha então seu próprio tempo
O tempo terá seus próprios meios

2018 — 1996

As gotas de chuva são das nuvens da minha cabeça de algodão que se derramam em cachoeira no seu coração de riacho.





no sonho sem belisco eu voo aos pulos e tropeços e aos tapas e eu caio e no deserto caio por metros eu não ando eu descambo ao soído rastejo e no oco eu mereço e subsisto




“Tormenta Vertigem”

A tormenta vertigem que atinge minhas janelas e separa e mescla dedos de bocas e cabeças fora das palavras correntes.
Uma cá, outra lá, as janelas batem e param!…
Horas não param de me bater, oscilam em total desconcerto.

Atormenta como me doem os olhos quando me bate em tormenta?

Ah, tormenta vertigem do sangue que em ânsia…
Confundiria o labirinto de suas veias e os cortes de seu vidro puxado pelas cortinas?
Indomável, como corpos doentes em mundos inexistentes, inexperientes, imaginários partidos da sangria.
Caímos sem parar como janelas que batem sem piscar e param…

Dê-me algo para aliviar a dor, tormenta!

Desordena o semblante, há de varrer o desmaio, há de acabar, há de cessar…
Ordena a cortina para arreganhar, não há de ceder, não há de acabar assim…!?

Ora, que porra à tormenta!… e as fendas monótonas que não se abrem.
Tudo ao cardápio apático, contraditório e barato que nos é dado para digerir e se embebedar em falso e vencido mel derrotado.

Do mel ao pé da janela, não cai, só lá fica.
Do mel, não provo.





De pose dramática, o dia amanheceu com lágrimas nos olhos e me acordou, chorando. Então, interminável, a dor da alma, farta, se derramava por seu espaço dizendo que não era mais preciso morrer de amor e eu, assim sendo, só pude concordar. Disse ao meu coração — coitado, já se encontrava demasiado cansado com o levantar e o bater de porta em porta — que voltasse ao fim. O fim, concluo, anoiteceu e eu só pude olhar, chorando. Fecho-me às cortinas de pálpebras.





“Melancolia, vá”

Demasiada é a dor que eu não compreendo e a vontade de cavucar o peito e tirar de lá o bendito que bate, bate até fazer ferida. Só posso colocar a culpa no corpo que emana os gritos de ajuda das escolhas estúpidas feitas pela alma, mas não o faço.

Em justificativa desconexa daqueles verbos, adjetivos falhos e membros enfraquecidos, de súbito, há alguns minutos tudo acaba de perder o sentido. Pouco a pouco vai ao chão as máquinas danificadas, criadas para manter funcionando a respiração que um tanto de coisas até então me arranca, agora sem motivos. Indefinidamente vago, completamente só. O peso me mantém fundo enquanto me torno náufrago, de ponta-cabeça, enlouquecido pela silhueta da morte.

Seria inapropriado continuar as reflexões sobre o momento em que o sangue já não dá em mim. Intervalo. Gotas e pílulas à minha falência de espírito causam sonolência, nisso recuso responder perguntas servidas em todas as refeições principais, mesmo nos lanches, não há apetite, nem porquê. Cumpro aviso prévio conservando plantas mortas para saber que não sou o único em decomposição no aposento onde só cabe cama e corpo, haja buracos para tapar, escapatória alguma será suficiente para abandonar a primeira pessoa.

A incompreendida dor existencial embrulhada e jogada em lixo próximo como grande desperdício, ainda é reconfortante aqui e naquele momento. Até quando procuro vida além da minha em curvas de palavras já usadas por outros pensamentos, a dúvida vassala de olhares planejados, distorcidos por um espelho tolo, pode me confundir por cem segundos mais. Não vejo um pulso sem impulso ou nada, não sei de nada, somente nada entre tudo ou bata para entrar. Eu não aguento mais. Por favor, vá.





“Antes Que Venha”

Eu me esbaldo nos braços errados procurando seus abraços em uma noite fria aquecida pela bebida que me faz chorar. Assim que afundo, me encontro oceano a nadar com o assassino de minh’alma até que ele fuja pelo buraco do teto de um mundo tão escancarado, ralo, permaneço raso questionando o porquê de tudo.

É em contemplação do meu amor que aqui deixo minhas mãos líricas decepadas junto com as lágrimas invisíveis do poeta morto antes sofridas, ao menos, naquele papel censurado e negado pelas pessoas iletradas.

De olhos cegos, pretendo estar com a garrafa cheia enquanto aproveito as últimas horas de minha lástima esperando a gota em que você acertará meu nome e demoro em segredo imaginando todas aquelas mentiras que costumo contar à noite bebedeira, fascínio, cobiço a aventura do fogo que se esvai.





Chuva, lama, sol
Sem sol
Só lama, lama, chuva
E um balanço
Vai, vem, cai
Chuva, alaga tudo
Aguaceiro e vento leva
Leva o balanço
Longe, longe, bem longe





“Jornal da Tarde”

Há algum tempo fui dado como morto.
Em outra vida, sim, acabo de perceber.

Um choque.
Estranho…
Não houve avisos. Se houvesse, ah… Se me atrevo a dizer, já estaria longe! Atender telefones, mandar mensagens, chegar bem? Não mais.
Parei de viver, enfim!

Acabei, já faz tanto tempo, na vida dos outros somente um fantasma. Meu próprio medo já não incomoda, logo, vou parar de incomodar.

É bom parar de correr, respirar, sentir a… Como ainda não havia notado? Aqui, pela primeira vez, talvez me falham as memórias. Seria a última, até que um novamente.

No final, serei só cinzas do meu mundo preto e branco citadas no jornal da tarde.
O jornal, o novamente.





Era uma pessoa média, de altura média, de peso médio, classe média. Morava em uma região média, seus sonhos e ambições eram considerados de facilidade média e seu sucesso só chegava até a metade. Uma pessoa que, com seu médio esforço, esperava conseguir coisas favoráveis em sua perspectiva de vida mediana. Uma pessoa que, cansada de tentar viver mais que a média, matou-se ao meio-dia.





“Divago”

Reciclando os versos de ideias passadas, me falta escrever o que me resta entender, ou o inverso, no verso da folha onde as anotações já não cabem e permeiam o lixo espacial da minha memória.

Escrevo para que minha voz não águe e se derrame nessa sua estúpida mania de me fazer repetir. Repito. Repito as respostas programadas daquelas perguntas desnecessárias que já não são bem-vindas. Veja agora, por falta de palavras, eu simplesmente digo que não sei e me torno ignorante.

Não termino pensamentos, divago no lixo em que vivo, desamassando frases acolá, presa no raciocínio ilógico e movida pela razão irracional. A típica mania dos três pontos…

Sigam em frente, todos, pois muito triste seria se fizesse sentido.





Reúnam-se, corações de vidro!
Os que se deixam transparecer
Os que precisam ser tratados com cuidado
E os que tem medo de se estraçalhar, ferindo todos ao redor.





Vivemos em um mundo aberto sendo fechados, vivemos livres e nos prendemos, vivemos o certo da maneira errada, mas, ainda assim, vivemos.





Eu não sei o que você fez ou o que eu fiz, o que aconteceu ou deixou de acontecer e muito menos de quem foi a culpa. Resolvi dar um tempo, um tempo de mim, mas você achou que era de você e deu um tempo de mim também.




Não sei quem sou, estou iludida em meus pensamentos e as mentiras de uma vida. A minha alma sente dor, sente frio, é ruim tê-la perto de mim. Digo, a morte me fascina, ela me coloca de frente para a solidão e então a procuro para que possa me consolar.